Nem sempre foi assim. Ainda me lembro de quando academia era uma coisa bem diferente. Em geral consistia num lugar apertado. E como as mensalidades eram bem mais baixas, não dava para caprichar no aluguel de um lugar legal, nem muito na manutenção e na limpeza, que não faziam muita falta mesmo. A ênfase dos estabelecimentos era oferecer serviços de musculação ao público carregado de testosterona. Ninguém ia lá interessado em frescuras como aulas de ginástica. E mulher nenhuma de bom senso passaria perto de um local desses.
Em vez de pessoas conscientes com a saúde e preocupadas com o bem-estar, tais locais atraíam sujeitos que priorizavam as habilidades físicas às intelectuais no seu desenvolvimento de carreira: leões-de-chácara, bandidos, boxeadores, “modelos”.
Criminosos de modo geral estavam à vontade lá. Podiam retomar velhos hábitos adquiridos na cadeia, como puxar halteres e brincar de se esmurrar no ringue improvisado. Além disso, o local servia como um ponto de encontro para colegas com interesses similares, o que permitia combinar “projetos” arriscados que eventualmente os levariam de volta a cadeia, onde fariam propaganda boca-a-boca da academia para os colegas em vias de terminar suas sentenças.
Com certeza, as academias são lugares melhores hoje em dia. Designers famosos fazem o projeto, DJs se encarregam da trilha sonora, cursos de hidro-body-ioga atendem a toda família etc. Mas algo se perdeu: a excitação, o perigo, a sensação da brutalidade darwinista pairando sobre todos.
Claro que isso não é definitivo. Tenho certeza que algum empreendedor ousado ainda vai ter muito sucesso lançando uma rede de academias temáticas. Elas vão se diferenciar pela proposta risque de se trazer de volta um pouco dessa sensação de perigo.Deixo algumas sugestões para o corajoso visionário:
- lâmpadas fluorescentes meticulosamente instaladas para funcionar mal, piscando e fazendo aquele ‘zmmm-zmmm’ tão característico
- recepcionistas mal encarados e tatuados
- tratamento cenográfico garantido um aspecto sempre sujo e descuidado aos banheiros e áreas de circulação
- trilha sonora cafona e datada, com bastante heavy-metal intercalado por música “de negão” (miami bass, gangsta rap, funk carioca etc.) Importante tocar aqueles hinos que fazem referencias a siglas de organizações criminosas
- No máximo uma televisão ligada, pequena e velha. Programação limitada a futebol e filmes de kung-fu baratos
- Lanchonete sem produtos naturais e balanceados: só oferecer salgadinhos suspeitos
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