Locadoras de vídeo precisam ser lugares agradáveis e seguros se quiserem dar lucro. Somente um ambiente acolhedor reforça a fidelidade e estimula as pessoas a freqüentá-las regularmente, aumentando o giro do estoque e em conseqüência a rentabilidade.
Tal preocupação com o bem-estar vai além das instalações físicas e se estende também na definição do portfolio de títulos disponíveis. A Blockbuster, por exemplo, adotou uma estratégia inovadora nos anos 80, ao banir de suas prateleiras filmes “adultos” (ou pornôs), criando uma, então inédita, atmosfera acolhedora para toda a família.
Mas agora tudo mudou, pelo menos para mim. Depois de uma descoberta recente, nunca mais poderei freqüentar uma locadora de vídeo com os mesmos olhos ingênuos de outrora. Dentro de uma alegre e bem-iluminada Blockbuster, descobri o verdadeiro Terror.
Ele tem um aspecto banal, se esconde dentro de uma caixa de DVD contendo um filme supostamente infantil, na prateleira de lançamentos. Seu nome é “Supermonkey”. A capa é simples: tem uma foto do provável protagonista, um chimpanzé jovial de aspecto risonho. Fazendo jus ao sufixo “super”, vemos que o primata está vestindo uma série de equipamentos inusitados para sua espécie: pára-quedas, capacete, óculos, um cinto carregado de equipamentos eletrônicos. A história do filme - posso apenas supor pois não tive coragem de ler a contracapa - narra as aventuras do macaquinho super-treinado em questão, provavelmente utilizando seus equipamentos e inteligência superior para enfrentar vilões diversos em missões perigosas.
Descobrir a existência desse produto me chocou. Na hora em que vi sua embalagem, uma série de enigmas insondáveis tomou conta da minha mente: Quem em sã consciência tomaria a decisão de escolher esse filme para assistir em casa? Ou de achar que “as crianças vão gostar”? Será que alguém realmente seria capaz de imaginar que um filme baseado num super-herói macaco que usa pará-quedas pode ser interessante em algum sentido? Será que o filme já foi alugado alguma vez? Assistido até final? Que linha de raciocínio exatamente conduziu a tal decisão de pagar pelo direito de conhecer o supermacaquinho? O que aconteceu com a pessoa após assistir o filme?
Passada a perplexidade inicial, fui tomado por preocupações mais sombrias: o lançamento de um filme não é obra trivial. Você precisa de um roteirista, um diretor, um produtor, um editor, um macaco, um treinador, um ator para o vilão, um ator-mirim que interpretará o melhor amigo do supermonkey, um cinegrafista, um operador de câmera, um figurinista, um preparador do storyboard e o cara que bate o claquete. Para não falar do esquema depois de pós-produção, lançamento e distribuição. E o custo das bananas que compõem o cachê do protagonista. O que passou na cabeça antes, durante e depois da realização do Supermonkey? Será que elas acreditavam estar fazendo uma grande obra, ou na verdade são todos marcados por um cinismo tão sem proporção que seriam capazes de qualquer coisa? (Até uma continuação?? Credo.) Será que elas assistiram o filme que “criaram”? Terão sido tomadas por orgulho ou pelo constrangimento e vergonha? Será que todos usaram pseudônimos e nem seus parentes mais próximos sabem que estiveram envolvidos neste projeto? Que tipo de mente maquiavélica pretendeu ter lucro produzindo um filme do macaco que imita James Bond? E a Blockbuster, duvido que ela seja inocente. Ela também pretende lucrar com o Supermonkey. O conceito que ela tem do seu público é tão baixo assim? O que mais ela seria capaz de fazer para atingir suas metas de rentabilidade? Quão mais baixo se pode ir sem se cometer crimes hediondos?
Tendo formulado todas essas inquietações, cheguei a imagem do verdadeiro pavor: a perspectiva de eu, por qualquer motivo, ser a próxima pessoa a alugar o Supermonkey. Gostamos de acreditar em nossa sanidade, bom-senso e discernimento, mas nunca podemos ter certeza da permanência deles. E se um dia, passando na prateleira dos lançamentos em “S”, demônios interiores assumirem o controle de minha consciência, ordenando-me levar para casa e assistir tal produção? Quem garante que isso não acontecerá? Quem pode ter certeza que seu superego é capaz de deter o supermonkey?
domingo, dezembro 18, 2005
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